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Em segredo

por Carla Hilário Quevedo, em 16.11.14

Loja de Porcelana CHQ 15-11-14

App PictureShow com filtro Retro e moldura 120 Reversal sobre Rapariga a ler uma carta perto da janela aberta, de Johannes Vermeer, 1657-59.

 

“Nunca se chegou a saber quem era, mas tu sempre soubeste. Porque é que não disseste?”, perguntou ele. “Porque o segredo não é meu. Soube, sei, mas isso não me dá o direito de contar”, respondeu ela, calando-o.

 

Nisto dos segredos, há pessoas de confiança e outras que não são. Mas nesse grupo restrito de “pessoas de confiança”, há estilos diferentes de guardar o que se sabe que deve ser guardado e de contar o que não pode ser mantido em silêncio. Se alguém prejudica propositadamente outra pessoa, e temos conhecimento disso em segredo, não será nosso dever contar? É uma maneira de condenar o que é condenável e que passaria impune se fossem cumprido aquele pedido impossível de guardar segredo.

 

Há tempos li que as pessoas que se preocupam com a justiça são desagradáveis. É desagradável tomar decisões quando se trata de dizer o que se soube em segredo. Mas quando será justo e correcto guardar as injustiças só para si? Não é melhor expô-las na praça pública? Quando alguém conta um segredo a outra pessoa, não espera que o outro tenha problemas em guardá-lo. Pressupõe-se que o faz num contexto de confiança e não prevê que haja dúvidas de quem ouve sobre se deverá ou não contar o que acabou de ouvir. Por outro lado, será justo esperar que a outra pessoa decida da maneira esperada? Fazemos bem em sobrecarregar os outros com os nossos pequenos mistérios? Fazemos bem em contar seja o que for que não possa ser público? Mas se tudo for público, como estabelecemos relações de confiança e amizade? Sem a partilha de informações exclusivas, não saberíamos quem está do nosso lado e quem não está; quem fala, quem mente, quem nos defende ou engana.

 

Talvez os segredos se dividam entre os que contamos aos outros e aqueles que não contamos a ninguém. Mas estaremos perante um segredo se não o contarmos a ninguém? Se assim for, então mesmo aquele que conta tudo sobre os outros estará cheio de segredos inconfessados sobre ele próprio. Ou conta tudo, tudo até ficar sem nada para si. Ou então transforma o que conta em possibilidades de uma vida: é um romancista ou uma escritora, na medida em que usa o que sabe como uma possibilidade do que poderá ser ou existir. Ninguém pode levar a mal.

 

Há duas ideias atraentes sobre segredos. Uma diz que somos todos segredos, uns para os outros, na medida em que somos misteriosos até para nós mesmos. É uma ideia simpática, mas talvez um pouco ingénua. Não são muitas as pessoas que têm a coragem de se conhecer, mas existem.

 

A outra ideia, que pode acrescentar obscuridade ao tema, é a de podermos viver um segredo como se não fosse um segredo. Quase como cometer um crime à vista de todos e sem ser visto ou fazer a doação mais generosa do mundo no anonimato estando presente na sala. Ter a satisfação de só nós sabermos o que fazemos, sem termos a intervenção, nem a opinião nem os olhos de ninguém, é o que move a ideia de “crime perfeito”. Como se houvesse quem vivesse sem um dia ser apanhado: “Aha, afinal és um forreta”. É uma mentira de controlo total do que se pensa e do que se é. Só existe na literatura.

 

Publicado na edição de fim-de-semana do i, 15/16-11-14

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publicado às 19:55