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Não vale tudo

por Carla Hilário Quevedo, em 22.06.14

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Por vezes, em discussões muito estúpidas, aparece a ideia de que a natalidade nunca foi tão baixa (lembro que isto não acontece só em Portugal) porque as pessoas “querem viver à grande”. Como se o dinheiro, que muitas vezes se traduz no apoio familiar que os casais têm ou não, fosse irrelevante. Como se as pessoas não fossem livres de escolher ter filhos ou não e, já agora, quantos. Como se uma das decisões mais importantes na vida dos casais, sobretudo das mulheres, por razões naturais e óbvias, mas que me vejo na estranha situação de ter de lembrar – é a mãe que traz o filho na barriga durante cerca de nove meses, quem a amamenta, com quem o bebé cria a ligação emocional mais básica no primeiro ano de vida – não lhes pertencesse inteiramente. Já se sabe muito sobre esta ligação particular entre mãe e filho, por isso fico quase sem palavras quase me falam de maternidade de substituição.

 

Ainda assim, vou aproveitar a discussão sobre os projectos lei do PS e do PSD apresentados no Parlamento no sentido de legislar sobre “barrigas de aluguer” quando há lesão ou doença do útero que impeçam a gravidez, para escrever as poucas palavras que tenho a dizer sobre o assunto. Sou radicalmente contra o recurso à maternidade de substituição. Não quero ferir a susceptibilidade de ninguém, nem pretendo incomodar mulheres que, por um motivo fisiológico a que são alheias, não podem ser mães. Pretendo chamar a atenção para a coisificação da mulher que cede uma parte do seu corpo para levar a cabo uma gravidez que não lhe pertence. Preocupam-me todas as questões sensíveis que se referem ao uso de pessoas para fins, que uso é esse e que fim também.

 

Neste caso em particular, o que está em causa é a existência ou não de um útero, como se o processo de desenvolvimento da gravidez fosse irrelevante. Acontecer ali ou acolá não é tido em conta, porque há um desejo a cumprir, custe o que custar e a quem custar, que é o de ser mãe. Sabemos que nem sempre a vida responde satisfatoriamente aos desejos de cada um. Hoje em dia é possível, através de métodos de procriação medicamente assistida, conseguir alguns resultados neste campo. Mas nos casos de infuncionabilidade do útero, a única “solução” à disposição até hoje não respeita a dignidade de uma pessoa, neste caso a da mulher que carrega na barriga uma criança que não é dela e que aparece aqui reduzida a uma função. Só a ideia é violenta.

 

Uma mulher que nasceu com esta anomalia escreveu uma carta aos deputados a explicar que a síndrome de que padece significa “a extorsão de um sonho”. Sei que não é possível mudar a cabeça das pessoas, mas uma mulher não é um útero e uma mulher que, por qualquer razão, não pode ter filhos não deixa de ser uma mulher “completa”. A questão principal de tudo isto surge da redução das mulheres a uma parte do seu corpo, passível de se tornar um negócio ou que pode ser usado “gratuitamente” para cumprir sonhos alheios.

 

O problema é que ninguém é dono do seu corpo para o vender, alugar, emprestar. Seria como alugar a Torre Eiffel para festejar o dia de Camões. Não, não vale tudo.

 

Publicado na edição de fim-de-semana do i, 21/22-6-14

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publicado às 19:30