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Diário da pandemia (17)

por Carla Hilário Quevedo, em 17.04.20

- Não percebo muito bem o que se pretende quando se diz que "há que voltar à normalidade". Se por essa normalidade se entende sair de casa e ir trabalhar, pois com certeza que sim, há que voltar. Se por essa normalidade se entende que as crianças e os adolescentes e os universitários voltem à escola, pois com certeza que sim. Mas se por normalidade entendemos que devemos esquecer o modo como as pessoas se comportaram durante esta fase difícil para todos, a cobardia que revelaram com o seu pânico, as secas moralistas que nos obrigaram a suportar em telejornais, as opiniões sobre a necessidade "patriótica" do silêncio, só para referir alguns exemplos, pois aí nada poderá regressar à "normalidade". Não podemos deixar de ver aquilo que nos foi revelado. Resta saber como vamos passar a agir perante tanta informação nova - ou que passou a ser impossível de ignorar.

- Entretanto, julgo que percebi por que razão a indignação, de um modo geral, me irrita. A maioria dos indignados, além de estar mais a falar sozinha do que a partilhar a sua frustração (que seria apenas humano), não está interessada em chegar a conclusões. Se me indigno com x+y+z então hei-de chegar a algum lado e mudar a minha conduta, como deixar de assistir a, de ler, de falar com, nos casos mais drásticos. Mas depois como é que o indignado sobrevivia?

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publicado às 08:14

Diário da pandemia (14)

por Carla Hilário Quevedo, em 03.04.20

- Ainda não vi a entrevista completa a Ramalho Eanes, mas pareceu-me claro pelo que vi que de maneira nenhuma estava a sugerir que os velhos se deviam sacrificar pelos novos. Nenhuma vida tem mais valor do que a outra. Simplesmente, há pessoas que fariam coisas que outras nunca pensariam sequer. E isso não é diferente do que acontece todos os dias. 

- Irrita-me imenso que estejamos nesta altura do campeonato pandémico ainda a discutir se usar máscara é bom ou não. No fim disto tudo, a OMS e a própria DGS devem ser responsabilizadas por persistirem neste debate que não é útil. E, por falar em máscaras, isto é engraçado. 

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The Fearless Girl statue outside the New York Stock Exchange, Nova Iorque, 2020.

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publicado às 09:45

Diário da pandemia (5)

por Carla Hilário Quevedo, em 25.03.20

- Há quem acredite, na sua ingenuidade e eterno espírito de tanso, que o momento não é para o combate político. Nem Marcelo, nem Costa nem ninguém neste momento que perceba o que está em causa pensa assim. A união é importante, claro, e o debate, a discordância, o conflito de ideias, a crítica são igualmente importantes. Só num país em que "discordar" é sinónimo de "boicotar" podemos ver tantos cuidados com a liberdade de expressão num momento em que combater - ou seja, falar, discutir, pensar - é mais do que nunca necessário.

- Através dos resultados de uma sondagem publicada ontem, percebemos que a queda na popularidade de Marcelo Rebelo de Sousa não coincide com uma subida na popularidade de André Ventura. Pelo contrário, André Ventura cai também. Ora, isto é extremamente interessante (para quem se interessa por estes assuntos), porque revela que 1) as pessoas não são estúpidas, e não vão a correr para os braços de um oportunista porque o Presidente se portou mal nesta crise; 2) há quem insista muito na tese de que criticar Marcelo é dar pontos a Ventura. Qual é objectivo? (Não sei bem se isto é uma pergunta.)

- Entretanto, a carta de Nuno Carvalho, da Padaria Portuguesa, ao Ministro Siza Vieira, parece ter surtido efeitos, ao contrário do que aconteceu às centenas de idiotas que ontem mostraram no Twitter que estão mais preocupados com o que alguns conquistaram do que com aquilo que todos têm a perder.

- Noto uma redução na partilha de vídeos divertidos e imagens engraçadas no WhatsApp. Faz-me pensar que não só eu que às vezes não me apetece ver séries de comédia nem nada que me faça rir. Depois a vontade volta. 

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publicado às 09:28

Diário da pandemia (2)

por Carla Hilário Quevedo, em 22.03.20

- Fiquei a pensar se estarei a ser demasiado inflexível em certas questões, agindo, enfim, como é meu hábito. Depressa  (resta saber se bem) concluí que não. Estamos a viver um momento difícil, e é nestes momentos que aquilo que já sabíamos - sabemos sempre, podemos é achar que o mais prudente é não prestar atenção - fica, por assim dizer, mais à vista. A pandemia funciona como o vinho. Ninguém se torna violento por beber, assim como ninguém se torna cobarde no combate. Isto significa que a) estamos dispostos a mentir a nós mesmos (se é que tal coisa é possível) por um bem maior e b) acredito que o carácter é qualquer coisa estanque, que se esconde ou revela perante as circunstâncias. Sobre b) admito vir a mudar de ideias, uma vez que a quarentena só agora começou. 

- Admito que parte de mim, como as mãos que mantenho lavadas e desinfectadas, gostou da notícia de o presidente do CDS se voluntariar para ajudar as Forças Armadas. Depois tive de me lembrar que ainda não estamos em guerra. 

- Sob o pretexto aparentemente inócuo de celebrar o Dia Mundial da Poesia, fomos confrontados com poemas "sobre o vírus" de Manuel Alegre, José Jorge Letria e Maria Teresa Horta. Apanhados de surpresa, os portugueses e estrangeiros residentes em Portugal não tiveram como escapar ao surto. Atenção que em Espanha aconteceu o mesmo. Como na economia, penso que as consequências de tudo isto podem vir a ser realmente nefastas.

- Para não ficarmos assim, deixo a sugestão da Forma de Vida para o dia de ontem. Ainda vamos a tempo.

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publicado às 09:53

Diário da pandemia

por Carla Hilário Quevedo, em 21.03.20

- Escrevi para o Ponto SJ sobre algumas reacções, muito boas e menos boas, a esta nova realidade pandémica que nos desafia a sermos melhores. Na bolsa dos comportamentos, há já quem caia a pique e quem ganhe pontos. Nada como um acontecimento avassalador - e repentino - para nos pôr à prova. Temos o campo aberto para a prática das virtudes, apesar da condicionante única de termos de viver à distância.

- Médicos, enfermeiros, cozinheiros, homens e mulheres que trabalham diariamente na recolha do lixo, caixas de supermercado, jornalistas, técnicos e todas as pessoas que estão a trabalhar neste momento "no terreno", fora de casa, para o resto da população poder estar recolhida, estão nas melhores condições para a prática das virtudes. Mas como vamos poder ser corajosos à distância, temperados à distância, magnânimes à distância? Há exemplos curiosos nas varandas de Nápoles, num país em que o vírus parece ter matado mais do que na China.

- É importante perceber por que razão a taxa de mortalidade é tão alta em Itália. Este artigo no Telegraph dá algumas explicações importantes. Também sobre a forma de combater a disseminação do vírus, gostei de ler este artigo na Atlantic. 

- Entretanto, apareceram algumas fake news alegres, como as notícias sobre golfinhos nos canais límpidos de Veneza. É falso, mas ao menos é bem disposto.

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publicado às 08:01