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Diário da pandemia (7)

por Carla Hilário Quevedo, em 27.03.20

- Em momentos especialmente difíceis como este, mentir parece ser inevitável. E tudo começa com a mentira do "vai ficar tudo bem" da qual a mentira de António Costa "até agora não faltou nada [nos hospitais públicos] e não é previsível que venha a faltar" é prima. Não seria tão dura a qualificar as palavras de Costa como sendo uma mentira clássica. É mais uma mentira da família do wishful thinking, tão perigosa como outras. Não estou a dizer que não podemos ter esperança. Digo apenas que a esperança se deve basear na verdade. E a verdade, neste momento, está nas mãos de poucas pessoas. Só isso assusta e serve para alimentar a desconfiança. Por isso é tão importante não ceder à tentação de confortar o povo com a frivolidade do optimismo. (Agora se vê como o optimismo serve para aqueles tempos em que nada de muito especial se passa, Brexit incluído.)

- Entretanto, a carta de Nuno Carvalho a Siza Vieira surtiu efeito. Apesar dos ataques e dos insultos de que foi alvo, ainda bem que falou. Houve, claro, muitos que disseram que devia ter ficado calado. Em Portugal, não há pandemia que suspenda a tradição de mandar calar.

- De todos os vídeos maravilhosos que andam a circular no WhatsApp, este de Vincenzo de Luca, governador da Campanha, é o meu preferido. Ai querem organizar uma festa de fim de curso? Nada como uma cargazinha policial com lança-chamas para fazer dispersar os inconscientes. 

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publicado às 10:06

Diário da pandemia (6)

por Carla Hilário Quevedo, em 26.03.20

- Ontem à noite aconteceu uma coisa insólita no Twitter. Começaram a circular tweets do deputado socialista Ascenso Simões em que insultava duas mulheres com o recurso àquela linguagem típica de quem se encontra no grupo de risco principal do coronavírus. Pouco depois do pandemónio, surgiu uma conta de um Ascenso Simões alegadamente verdadeiro a alertar as pessoas para a outra conta de um alegadamente falso Ascenso Simões que andava por aí a insultar perfis de mulheres (a dada altura pareceu-me que o deputado - nesta altura, alegadamente - punha em causa o género das interlocutoras, achando que assim estava tudo bem). A conta pedia que a outra fosse denunciada. Depois disto, rapidamente começaram a circular tweets que contradiziam a tese da conta alegadamente verdadeira. Afinal, o verdadeiro Ascenso Simões era aquele primeiro, que já tinha estado na origem de várias polémicas. Entretanto, a conta alegadamente falsa foi temporariamente suspensa (impedindo o autor de reagir), e o autor da outra recente não resistiu a fazer um tweet em que confirmava esta tese. Aprendam com o PS, que eles, se o eleitorado quiser, não duram sempre.

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publicado às 09:42

Diário da pandemia (5)

por Carla Hilário Quevedo, em 25.03.20

- Há quem acredite, na sua ingenuidade e eterno espírito de tanso, que o momento não é para o combate político. Nem Marcelo, nem Costa nem ninguém neste momento que perceba o que está em causa pensa assim. A união é importante, claro, e o debate, a discordância, o conflito de ideias, a crítica são igualmente importantes. Só num país em que "discordar" é sinónimo de "boicotar" podemos ver tantos cuidados com a liberdade de expressão num momento em que combater - ou seja, falar, discutir, pensar - é mais do que nunca necessário.

- Através dos resultados de uma sondagem publicada ontem, percebemos que a queda na popularidade de Marcelo Rebelo de Sousa não coincide com uma subida na popularidade de André Ventura. Pelo contrário, André Ventura cai também. Ora, isto é extremamente interessante (para quem se interessa por estes assuntos), porque revela que 1) as pessoas não são estúpidas, e não vão a correr para os braços de um oportunista porque o Presidente se portou mal nesta crise; 2) há quem insista muito na tese de que criticar Marcelo é dar pontos a Ventura. Qual é objectivo? (Não sei bem se isto é uma pergunta.)

- Entretanto, a carta de Nuno Carvalho, da Padaria Portuguesa, ao Ministro Siza Vieira, parece ter surtido efeitos, ao contrário do que aconteceu às centenas de idiotas que ontem mostraram no Twitter que estão mais preocupados com o que alguns conquistaram do que com aquilo que todos têm a perder.

- Noto uma redução na partilha de vídeos divertidos e imagens engraçadas no WhatsApp. Faz-me pensar que não só eu que às vezes não me apetece ver séries de comédia nem nada que me faça rir. Depois a vontade volta. 

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publicado às 09:28